22.6.09

Férias do tratamento

O paciente recebeu alta, uma breve alta.

O Paciente apresentou quadro de delírio em 22.6.09
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14.9.08

Como os Médicos Pensam

O Paciente voltou. Ele vai presentear e quer que você saiba como os médicos pensam. Um exemplar do livro Como os Médicos Pensam pode ser seu.

O Dr. Jerome Groopman reuniu incríveis casos de conceituados médicos e experiências próprias e desvenda com simplicidade o abismo cognitivo que pode existir entre um diagnóstico certo e errado.

O autor, Dr. Jerome Groopman é médico oncologista e hematologista e professor na Faculdade de Medicina de Harvard.

E você, quer saber como os médicos pensam? É fácil, envie um curioso relato médico para o paciente: lucas.aguilera@gmail.com, o relato mais surpreendente ganha um exemplar do livro. Envie seu relato até 30 de setembro juntamente com seu nome e endereço para postagem do exemplar. O resultado sai no dia 10 de outubro.

Aproveite para conhecer um pouco mais do livro acessando: http://www.ediouro.com.br/comoosmedicospensam, e é até possível ler um capítulo do livro clicando aqui.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 14.9.08
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23.5.07

Aniversário do Paciente

Caríssimos médicos de plantão, visitantes casuais, internos inconformados, incompreendidos e afins... É o aniversário do Paciente, e para quem não tem idéia do que presentear - o que considero bem remoto, pois todos são criativos em excesso - providencio uma ajudinha básica: Minha lista de desejos.

Saudações, o Paciente.

Enfermeira diz: O Paciente promete em breve novos delírios. Ele anda extremamente ocupado com coisas que... bem, sabemos que é difícil de entender.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 23.5.07
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24.4.07

Toda bondade será punida - parte I


Parado no ponto de ônibus, eu fazia umas contas de cabeça, viajando longe, tentando descobrir exatamente o quanto a farmácia havia lucrado com todas as unidades de Cetoconazol que eu comprei. Fiquei imaginando que meu corpo poderia começar a desenvolver um terceiro braço, ou obter super poderes com tantas essas doses que ingeri.


Foram seis meses e muito dinheiro para tratar uma unha odiosa. Uma unha no dedo do pé. Pura crueldade genética colocar uma unha dessas no meu pé. Causa tanto espanto, que acredite, já ouvi: "Te amo, mas tenho medo da sua unha". Medo? Como alguém tem medo de uma unha? Tudo bem, é mesmo horrível. Para ter uma idéia simples da coisa, imagine uma barata cascuda, albina e anã. Agora, imagine isso abraçado ao final de um dedo no pé. É isto que parece.


Os cálculos do remédio estavam altos, abandonei a idéia de continuar assim que avistei o ônibus. Lá vinha, aquele mesmo, o 5611/10. Sobre esse ônibus, eu já falei que muitas pessoas no mesmo horário aguardam esse ônibus? E que também, 'muitas', é no sentido de muitas serem muitas mesmo? Pois bem, e todas elas estavam lá enquanto o ônibus vinha... e vinha mais perto, mais perto e parou com a porta de embarque bem à minha frente. Eu deveria sorrir para sorte, desta vez eu conseguiria um assento, qualquer um da minha escolha.


A porta se abriu, segurei o suporte do lado direito da porta, coloquei o pé direito no primeiro degrau e em seguida tive que desistir de subir. Lá no alto, no último degrau uma velha manobrava seu corpo enorme, fazendo aquele slow-motion agonizante que só os velhos conseguem dramatizar tão bem. A velha queria descer. Estava determinada a fazer isso, e demonstrou sua vontade deixando a gravidade conduzi-la escada abaixo. Imediatamente me vi entre uma velha terrivelmente grande e dezenas de desmiolados que me empurrariam ônibus adentro ao menor sinal de hesitação. Não havia escolha, eu até poderia forçar a passagem, mas optei pela bondade incompensável. E claro, arcar com as conseqüências que costumam ser proporcional a sua ação.


Aconteceu que tive de retornar usando força sobrenatural para impedir que toda a multidão do lado de fora não entrasse, evitando que me levassem de encontro com o dinossauro que vinha descendo descontroladamente. Fiz toda a força que pude e consegui recuar, talvez um metro e meio para dar passagem. Conquistei aquele espacinho para ela, continuei firme para as pessoas não avançarem enquanto a velha descia toda desigual. O primeiro degrau, "plá", socou no chão do ônibus um tamanco que parecia ter sola de madeira fez um som seco e pesado, era cheio de laços amarrados ao tornozelo. Agora, ela parecia duende gigante... Continuou a descer, sacudindo-se como um saco cheio de tralhas. Ela segurava uma sacolinha suja numa mão, uma rosa murcha e a foto de uma santa na outra. Quando conseguiu passar todo o corpo pela porta, aterrissou no planeta Terra. Exatamente entre todo o espaço vazio do universo e a minha unha. Sim, a unha feia, cravou o salto largo e quadrado do tamanco sobre ela.


- Caraaaaaaaaaleo! (desculpe, mas foi o que eu gritei), Vá pá puta que o pariu! (desculpe novamente, mas foi o que quis dizer). A velha, além de pregar meu pé no chão, me acertou forte com o ombro no meio do peito, meu corpo quis ir pra trás com o golpe, mas meu pé estava preso no chão. Fiquei com uma mão segurando o apoio melequento do ônibus, e a outra mão, foi involuntariamente contraída pelo trauma que meu pé sofria e esmagou o livro que eu segurava. Acabei com o livro, estava novinho, ainda fedia verniz de tão novo. Tudo isso foi numa fração de segundos até a velha desocupar o meu pé e sair andando, dramaticamente lenta. Subi para o ônibus com os calcanhares, meu dedo latejava e fiquei com uma tosse instalada na garganta por causa do baque no peito.


Porém, senhores, meu castigo não poderia ser assim, tão simples. Passei a catraca e logo sentei no banco que fica de frente para o cobrador e no assento da janela. A minha frente havia um cofre que fica abaixo da cadeira do cobrador e eles escrevem com tinta branca - deve ser aquele corretivo - a seguinte frase: "É favor não por os pé", desculpe, mas não desta vez. Meti os dois pés ali. E o esquerdo que foi pisado eu fiquei olhando com dó e pela janela observei a velha andando toda torta Praça da Sé adentro.


No assento junto ao corredor deixei o livro, todo amassado. Limpei o suor da testa com as duas mãos e tentei me abanar – de um jeito bem tosco, daquela forma idiota, tipo se abanar com a mão e com os dedos abertos, não produziria uma única brisa nem em um bilhão de anos –, ou seja, nada adiantou. As pessoas não paravam de entrar no ônibus e ele permaneceria ali parado até entrar mais pessoas do que oxigênio. Travei uma batalha para continuar consciente, por um instante me senti sufocado pela idéia de ver tantas pessoas entrarem no ônibus, mas foi só por um momento. Logo percebi que esqueci o livro no assento e num reflexo de bondade, meu braço involuntariamente tirou o livro do assento. No mesmo minuto a catraca estava sendo sacudida por uma imensa mulher, e ela viu quando o livrou desocupou o banco, na hora o paquiderme pensou que eu estava sendo gentil e... oh não... please, não era a intenção, não quero ser bom... não.... NÃÃÃÃÃÃÃÃO - Cabum! Ela sentou-se ali, ao meu lado. Não exatamente sentou-se, mas precisamente se jogou no banco. Meia bunda e uma perna inteira certamente ficaram para fora do banco ocupando boa parte do corredor. Ainda, ela teve a manha de se acomodar melhor. Chacoalhava toda aquela massa mole contra meu corpo e ainda me acertou algumas vezes com uma bolsa preta que tinha o nome de um curso bordado em branco bem no meio da bolsa.


Tentei encará-la e demonstrar meu desconforto, porém sua cabeça estava muito distante, talvez houvesse uns quarenta centímetros entre a cabeça dela e o final do ombro, e depois disso estava eu, meu corpo comprimido contra a janela e a parede revestida Fórmica velha. Era melhor que houvesse um interfone entre nós, assim eu poderia falar com ela. Continuei a encará-la e nada. Então ela parou de se mexer. Fez 'ziiiiiiiiiiiiip' com o ziper da bolsa e mirou para dentro da bolsa. Ficou fixa, paralisada. Eu também fiquei parado, olhando seu rosto imóvel, inclinado e sem expressão. Cheguei a pensar que houvesse uma TV ligada dentro da bolsa. Fiquei curioso, resolvi esticar o pescoço e olhar, e então entendi. Dentro da bolsa estava toda a resposta para tudo aquilo que estava do lado de fora. A bolsa continha toda a sorte de guloseimas, todas elas: chocolates, bolachas, docinhos, balinhas e chicletes. Então é isso que ela faz, pensei. Só come!


De repente, ela saiu do transe, seu braço sumiu dentro da bolsa e reapareceu com um Suflair que também sumiu com três mordidas. Eu disse: três mor-di-das. Logo ela começou a escolher outro item e finalmente o ônibus começa andar.
Olha, quero ser bom, juro. Se ela tivesse um treco qualquer que a fizesse ficar tão grande, era uma coisa; agora, enfiar goela abaixo todo o açúcar dos chocolates e carboidrato das bolachas, é outra coisa. E ainda mais, ficar me espremendo num canto só elevou meu ódio.


E assim foi: bolachas e balinhas, devoradas sem julgamento algum enquanto eu limitado a poucos movimentos, fiquei assistindo o cetáceo encurtar a vida ingerindo todas as calorias escondidas na bolsa. A criatura era muito branca, quase reluzia, parecia uma beluga, e ainda usava uma roupa clara. Será que ninguém ensinou o toquezinho da roupa preta? Que dá uma disfarçada e engana o volume? Ela não se preocupava com isso, queria comer e esgotar a reserva da bolsa. A boca não parava, os braços descobertos amarrotavam a pele ora num canto, ora em outro. Apesar de tudo, o número da pele era maior que o corpo, sobrava-lhe couro.


Eu nunca fui até o ponto final desta linha. Fica longe? Não sei. O monstrengo do meu lado sabia, ou iria até lá? Também não sei, mas sei que ela, depois de enfastiar a mandíbula, simplesmente, dormiu. É, acredite, dormiu. E dormiu de ressonar, largar o corpo, até parecia que o tronco encolheu um pouco. De repente o braço direito começou a deslizar e foi se mexendo pensei que ia cair sobre meu colo. Eu não agüentei e quis rir. Aquilo não era possível. O cobrador contava um maço de dinheiro e toda hora perdia a conta porque ficava rindo da minha situação. O sujeito até tinha uma cara engraçada, o que me forçou a rir, e foi quando baixei a cabeça para esconder a risada e vi uma mancha estranha na minha blusa. A mancha parecia um monte de poeira de cor marrom-escuro, bem no centro do peito. Passei o dedo e subiu um fedor horrível de mofo. A velha trapalhona, quando me acertou ao descer do ônibus, transferiu uma colônia inteira de mofo daquele casaquinho surrado. Não quis rir de mais nada.


Passei o resto do trajeto mais apertado ainda contra a parede para evitar que o braço continuasse seu progresso maligno. Mais a frente era o ponto onde eu desceria, e sabendo da multidão que estava dentro do ônibus, resolvi levantar antes, para isso, senhores, pulei pelo banco a montanha-de-carne, porque nem o cobrador, afundando metade do dedo no ombro da moça, ela acordava.

Trabalhei o dia todo, apenas imaginado o que teria acontecido com meu dedo. Quando voltei para casa, me enchi de coragem e verifiquei o dedo, a unha estava destruída em três partes. Pela manhã precisei ir até uma cirurgiã que já me conhece de outros carnavais e sabe o quanto sou cagão. Quando o assunto é mexer no corpo: fazer cortes, tirar uns nacos, costurar, e coisas parecidas, eu perco os sentidos. Para evitar uma lenga-lenga frescurenta e essa possível perda dos sentidos, ela pegou um alicate - que pra mim, é um instrumento medieval - e estripou da carne a unha.


Agora serão mais de trinta unidades de Cetoconazol e muita grana que vou gastar. Desta vez não pode falhar... ganharei super poderes, yeah!
O Paciente apresentou quadro de delírio em 24.4.07
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5.2.07

O rubi, o coração de ouro e a brasília vermelha

A origem de todo o mal. Parte II.

Mil novecentos e noventa e um. A quinta série num colégio de freiras começaria e seria também o meu último ano naquele lugar. Embora todos os outros anos tivessem sido exatamente iguais, este, conforme sua própria maneira de enumerá-lo, seria impar. Mas igual, exceto por um pequeno detalhe. Ou melhor: dois pequenos detalhes.


Pois bem... no início daquele ano, de algum modo estranho e nebuloso conheci a Tatiana. Mais nova, mais esperta e muito bela, só perdendo para sua amiga Flávia no quesito beleza.


Nossa amizade começou de forma boba. Nós, basicamente sobrávamos, ela mais do que eu. Enquanto um senhor não a vinha buscar no final das aulas eu ficava por ali até que ela fosse. Eu ia sozinho para casa – mamãe confiava que eu atravessaria a rua sem ferimentos graves.


E todos os dias eram assim. Encontrávamos no final do período no mesmo banco para aguardar o mesmo senhor e sua brasília vermelha. Ela prendia coisas coloridas no cabelo e às vezes uma polaina nos tornozelos, isso era menos estranho que o meu bolso cheio de moedas, os rendimentos do dia – depois explico isso. Minha função básica ao lado da Tatiana, além de admirá-la muito, era também, ouvi-la. Falava-me muito da irmã e da mãe, nunca sobre o pai. Ele não deveria existir, eu pensava. Seus assuntos envolviam drama, briga, desgosto com a família e as coisas que ela aprontava. Eu gostava de suas histórias e reclamações, eram criativas e as coisas não pareciam ser tão cruéis o quanto ela dizia, talvez o seu humor fizesse parecer assim. E ela, do mesmo modo, gostava do que eu tinha a dizer.


Preciso confessar que o capitalismo começou a me fascinar já naquela idade – isso explica as moedas, mas não pára por ai. As freiras deram um jeito de poupar o trabalho de alguns funcionários e inventaram uma recompensa a quem devolvesse na cantina da escola uma garrafa vazia – o famoso casco. No intervalo das aulas a molecada comprava lanche na cantina e largava a garrafa em qualquer lugar, então, a necessidade do incentivo. Você poderia trocar a garrafa esquecida por um punhado de balas ou alguns centavos. Havia um bom motivo para eu preferir o dinheiro: no prédio – onde moro até hoje –, ao final da tarde daquela época, passava o lendário Tio do Doce e sua sacola abarrotada de quitutes muito mais deliciosos que as duras balas de maçaroca com anilina da cantina, e mesmo com tanta opção eu era pragmático com o amendoim doce. Coletar moedas durante o intervalo era fácil e a coisa toda funcionava bem. Para dar conta de tanta garrafa perdida eu 'recrutei' um bando de pivetes mais pivetes do que eu, todos da primeira série, os quais iriam angariar o maior número de cascos ao troco de um punhado de balas – ou mãozada, como eles diziam. Uma garrafa que eu trocasse já 'pagaria' os meus arrecadadores, e a grana, ia direto para o meu bolso. Infelizmente eu só tinha um bolso na calça.


Não sei como exerci tal poder sobre as pequenas almas. Talvez fosse meu assustador aparelho extra-oral, o notável capacete. Um conjugado de ferros, elásticos e um pedaço macio de camurça azul-marinho que ficava na nuca e tencionava o artefato contra o maxilar. Um charme aterrorizante. Mesmo assim eu tinha o crédito e a companhia da Tatiana todas as tardes ao meu lado.


Chegou o tempo em que tirei aquele treco da boca e não precisava mais usar. E sempre, ao final dos períodos, quando o sol é mais laranja, encontrávamos e domávamos o tempo, e quando a conversa terminava nos abraçávamos e sustentávamos nossos corpos sobre o mesmo banco de concreto. Meus dedinhos ficavam entre seus cabelos e ela murmurava uma canção enquanto eu experimentava uma felicidade tranqüila e sem interrogações.


Mas uma tarde foi diferente, uma tarde ela se mostrava muito ansiosa. Sua atenção fixava-se no meu rosto, a maior parte do tempo nos meus olhos, que me examinavam com entusiasmo, como se em toda a sua curta vida eu não estivesse ali e agora eu era algo novo e bom. E ficou assim, falando de coisas alegres, sendo amável e feliz, sem o menor medo da altura que isso poderia levá-la. Ela sorria e me enchia também com alegria. Quando não havia mais ninguém a vista, ela agarrou minha mão e saiu correndo comigo. E eu ia, corria pelo vazio, com o braço estendido, guiado por ela, seguindo suas gargalhadas até uma escadaria, num lugar vazio e aberto, onde o vento soprava em espiral e as folhas subiam do chão, e tudo era uma chuva ao contrário com o perfume das flores ao nosso redor. Ali paramos. Ela planejou aquilo, só podia, ela me pôs num degrau e ficou num outro acima do meu, ficando da minha altura. Permaneci em silêncio tentando entender aquilo. Ela ergueu minha mão direita fazendo com que a palma permanecesse perpendicular ao meu corpo e disse: “Espere”. Esperei os segundos mais eternos que pude experimentar. Esperei tentando controlar o fôlego e a ansiedade. Minha mão ali, parada, esperado sabe-se lá o que. Então eu vi sua mão, que remexia seu bolso, surgir cerrada e trêmula. Meus olhos acompanharam seu movimento até sua mão ficar sobre a minha. Ela abriu lentamente a mão e eu senti dois pequenos objetos caírem sobre minha palma, um de cada vez.


Seu delicado dedo indicou e descreveu cada item sobre minha mão: "Este é um coração. Ele é de ouro. E esse menor, é um rubi." Continuei estático como se meu corpo fosse de um denso e pesado metal. Sua mão direita segurava a minha cuidando para que eu não deixasse os objetos caírem e eu tremia. Com a outra mão ela fechou vagarosamente meus dedos até que a minha mão ficasse entre suas duas mãos e recomendou: "Fique com isso. Será sempre seu. O coração é como se fosse o meu e o rubi é a nossa amizade". Ela soltou minha mão e disse: "Eu te amo, esta é a prova do meu amor". Meu estômago dobrou-se ao meio e minha nuca ferveu a 50 graus. Fiquei sem ação e antes que qualquer pensamento pudesse se formar fui envolvido num carinhoso abraço e afetuosamente seus lábios tocaram os meus. E foi um beijo. Um beijo tão delicado e sincero que uma fada adormeceria entre os lábios. Os dias foram felizes.


Porém, os negócios iam mal. Eu não queria mais juntar moedas para comprar doces. E antes que eu pudesse me livrar dessa responsabilidade, fui cobrado pela Tatiana. Desde cedo, os negócios estariam entre eu e o coração. Discutimos na hora do intervalo porque um bando irritante de moleques rodeava-me com garrafas e eles não entendiam que as balas vinham da cantina. Eu só queria que eles sumissem com os vidros. Eles continuavam a pensar que eu era o excelso provedor de balas – não consegui convencê-los do contrário. O quebra pau teve uma pausa com tempo suficiente para eu notar a aproximação da Flávia que vinha das mesas de pebolim. E quem é a Flava? Eu digo. A Flávia era uma garota que sabia como andar, como se locomover. Absolutamente habilidosa na arte de simplesmente: andar. Se os ortopedistas dizem que seres humanos não andam e sim executam uma queda controlada, é porque eles não conhecem a Flávia. Ela driblou a natureza e era dona do conjunto de membros mais harmoniosos daquele colégio. Tudo. O cabelo, a pele e aqueles olhos que te fariam confessar qualquer coisa. Assim, resumidamente, era a Flávia. Ela chegou, e postou-se ao lado da Tatiana. A discussão recomeçou e poucas palavras depois a Flávia interfere dando razão a Tatiana e para mostrar lealdade e afirmar sua posição contra a mim ela avança e tenta me empurrar.


Tive o reflexo de afastar o corpo, mas não o bastante e fui vencido por um desnível no chão. Desabei com as mãos para trás e a ela sentenciou: "Fraquinho!". Levantei do chão e fitei fundo nos olhos da Tatiana e não encontrei apoio. Ainda, sentindo minúsculas pedras grudadas nas minhas palmas, fechei o punho e acabei com o maior trunfo da Flávia: a beleza de seu rosto. Todos os meus cinco dedos afundaram seu olho esquerdo na órbita, e ela, dramaticamente, foi ao solo. Pude ‘sentir’ a Tatiana lançar um olhar de condenação. Senti vergonha, corri e desapareci.


Passei o segundo período escondido numa escada de acesso ao convento. Apenas esperei até que tocasse o sinal para a última aula. Ele tocou e eu corri até o banheiro onde uma turma que fazia educação física acabara de entrar. Molhei o cabelo e fiquei infiltrado entre os alunos para alcançar a minha classe. Apanhei minha mochila e sumi daquele lugar e da vida da Tatiana.


No dia seguinte eu não tinha garrafas, o bolso estava vazio, o olho da Flávia estava um roxo azulado e muito escuro. Nunca fui punido. A Tatiana ia todos os dias embora com o mesmo senhor que guiava a mesma brasília vermelha. Por muitas vezes a vi passar na rua onde moro, meus olhos a seguiam, e ela, debruçada no banco de trás olhava-me silenciosa e protegida pelo vidro.


Nove anos se passaram. Haveria uma festa Anos 60 no Tusp – na Rua Maria Antonia, para ir à festa tomei emprestado uma jaqueta de couro. Antes de ir à festa notei um isqueiro deixando no bolso da jaqueta, pensei em devolvê-lo, mas decidi fazer isso na volta. Na festa, depois de dançar bastante fui para uma fila apanhar umas bebidas e vi a Tatiana sentada numa bancada próxima ao final da fila. Meu coração bateu forte e toda a memória sobreveio claramente. Tentei permanecer controlado e agi com naturalidade como alguém parado numa fila, era tudo que eu precisava fazer. Ela não me via. A fila andava rápida e cada vez mais ficávamos perto. Meus olhos grudaram nela e não havia músculo ou nervo que me obedecesse. Continuava ali. E pouco antes da minha vez, a vi abrir a bolsa, puxar um cigarro e abraça-lo com os lábios, e revirar a bolsa. Eu saí da fila, caminhei em sua direção e rapidamente estendi a mão e a chama de um isqueiro alheio. Ela não olhou nos meus olhos, apenas seus dedos, menos jovens que outrora, tocaram o dorso da minha mão e fez a chama se aproximar de seu cigarro até que ele acendesse e ela pudesse tragá-lo um pouco mais forte e fazer a ponta do cigarro ficar mais iluminada. Ela agradeceu com um sorrio e só neste momento seus olhos viram os meus. Eu deixei o isqueiro apagar e afastei a mão. Ela desviou o olhar e noutro instante ela voltou os olhos mais atentos. Tive tempo de registrar aquilo e dei as costas. Não sei se fui reconhecido, mas percebia seus olhos investigadores a me seguir. Não peguei as bebidas e justifiquei para a minha companhia da época apenas parte dos fatos.


Depois da festa, três anos se passaram e fui presidir a sessão 85 da quarta zona eleitoral nas eleições para prefeitura de São Paulo. De saco cheio, parado do lado de fora da sala, no corredor da escola pública reconheci o mesmo passo elegante a muitos metros. Era, inconfundivelmente, a Flávia. Minuto a minuto, centenas de pessoas passam por ali, mas sua presença era notável. Na fila da minha sessão quatro pessoas já aguardavam do lado de fora e para a minha surpresa a Flávia parou na fila. Mais quatro pessoas chegaram juntas e a fila ficou maior. Um assistente saiu da sala para recolher os documentos e eu mandei que voltasse e comecei a recolher os documentos. Um a um até o dela e então disse: "– Quanto tempo, Flávia." Ela ficou olhado com espanto e enquanto me perguntava de onde nos conhecíamos eu recolhia os outros documentos e entregava ao assistente. Propositalmente deixei o documento dela abaixo de todos, assim sua chamada seria atrasada.


Conversamos por menos de dois minutos e ela ria das coisas que eu dizia. Nada falei sobre agressão, tampouco qualquer coisa que me tornasse evidente, qualquer coisa que me revelasse eu evitei. De certo ela não se lembrou ou fingiu com maestria. A voz do primeiro secretário da sessão vinha de dentro da sala chamando-a. Ela exerceu sua função de cidadã e ao sair conversamos um pouco mais. Depois nos despedimos com um abraço. Com grande remorso a observei ir embora e o mesmo sentimento pusilânime de treze anos atrás esmagou minha moral com furor e tive vergonha de não ter dito: desculpe.


Semanas depois da minha briga com a Tatiana, do alto do terceiro andar no meu apartamento, lancei janela a fora o rubi e o coração de ouro. Cada um, segundo o peso de sua massa, caíram sobre o asfalto quente, segundos antes de uma brasília vermelha passar.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 5.2.07
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16.1.07

Benefício número 755 - comando para irritar


No sábado fiquei em casa esperando a tempestade que o serviço meteorológico prometeu a semana toda. Nada acontecia. Exceto um estranho telefonema perto da hora do almoço. Uma tal Daniela da UNE ao telefone. Essa Daniela começou a questionar algo sobre minha ausência na reunião de um dia que já havia passado e que eu perderia o benefício número 755. Eu nem sabia de beneficio algum. Isso já me irritou. Em pleno sábado chato pra caramba essa fulana me enche o saco com uma conversa. Ai ela pergunta da carta, do comunicado. Também não recebi nada. Voltei de viagem e ficou uma pilha de correspondência para abrir, era bem provável que o comunicado do benefício 755 estivesse por lá. Em certo momento ela cita a palavra: 'graduação'. Isso chamou minha atenção.


- Então, Daniela, podemos conversar na segunda? - tentei encerrar a conversa.
- Podemos sim. Eu só queria fazer a entrevista e saber qual curso você gostaria de fazer. O seu benefício é de 50% em qualquer curso. Você já tem uma formação?
- Já tenho sim.
- Tem interrese em uma outra?
- Talvez. Como posso saber quais são os cursos?
- Anote um endereço.


O endereço da unidade próxima da minha casa, era numa avenida bem conhecida, no número 75. Tudo ficou claro na nossa conversa, que nesse endereço eu conversaria com alguém da UNE.


Corri até lá, chegando antes da tempestade que ameaçava.
Já a porta, não parecia 'um escritório da UNE', conferi o número e estava certo, 75. O nome da avenida também. Entrei e perguntei sobre algo relacionado a UNE. Isso foi a senha.


- Qual o número do seu beneficio?


Falei o número e a moça da recepção pediu o RG para confirmar. A besta que vos escreve entregou o documento. No exato momento me vi dentro de uma dessas escolas de cursos de informática e idioma. Puta merda! Não acredito que cai nesse papo. O teor da minha conversa com a maluca da Daniela era sobre curso de graduação. Não essa coisa onde eu estava.


O arrependimento me acertou em cheio, e junto, o barulho que vinha da chuva. Lá fora, tudo ficava prateado.


Sentei numa das cadeiras da recepção para mirabolar uma forma de sair correndo daquele lugar. Nada surgiu na mente. Vi meu RG na mão de um sujeito muito estranho, um cara grandão que parecia o Nerso da Capetinga uns 20 anos mais jovem. Ele se aproximou, perguntou se eu era o cara do RG e se apresentou:


- Oi, meu nome é Rogério, quero lhe dar as boas-vindas, e os parabéns por escolher a nossa escola.


Meu sangue ferveu. A figura falou aquilo com um excesso irritante de educação e uma atenção muito mal ensaiada. Não consegui sacar se ele parecia mais uma mulher falando ou imitava uma mulher falando, mas plagiava mal de qualquer forma. Seus gestos também eram estranhos, ele parecia ter molas desajustadas em todas as articulações. Dei uma resposta:


- Dispenso as boas-vindas, não fiz escolha alguma, isso é um engano, um grande engano.


O cara revirou os olhos em 180 graus:


- Bobagem. Vamos conversar.
- Vamos poupar o nosso tempo. Estou aqui por engano. Uma conversa estranha com uma tal Daniela da UNE, acho que houve um mal entendido.
- Ah, você falou com a Dani? - que intimidade. - Então o seu benéfico é bom. Vamos, vou apresentar a escola.


Com toda a água que caia, eu não tinha saída. Mesmo assim o preveni que ele perderia tempo. Mas ele insistiu um pouco mais. Concordei em conversar e não queria conhecer a escola. Ele relutou, mas concordou em apenas conversar. Levou-me até uma sala cheia de vidros onde era possível ver toda a escola, apontou uma cadeira para eu sentar, disse para ficar a vontade e que logo voltaria.


A cadeira que sentei era a pior do mundo. Completamente desconfortável. Pequena, dura, torta e feia. Do outro lado da mesa tinha uma cadeira muito melhor, e provavelmente era do sujeito. Na maior cara de pau, troquei as cadeiras. Agora sim estava a vontade. A cadeira era macia, reclinava e tinha braços.


A figura volta para a sala com uma papelada enorme nas mãos e pergunta se eu quero um café. Respondo: "Não, obrigado". Nisto, ele nota a troca das cadeiras e fez um número perigoso de expressões com o rosto que se continuasse por mais um minuto ficaria daquele jeito pra sempre. Aquelas contrações faciais deveriam ser algumas palavras que ele preferiu não dizer. Sábia decisão.


Nos primeiros dez segundos de conversa minha suspeita foi confirmada, o cara tentaria me vender um curso de PowerPoint e adjacentes. Ao seu lado havia uma pilha de folders, um de cada curso. Ele estava com muita energia para vender aquilo tudo. Rejeitei imediatamente os dois primeiros cursos que ele mostrou. Ele se mostrou sem paciência - e logo corrigiu a postura para não parecer que ficou impaciente -, tudo que ele me mostrava eu dizia já ter ou conhecer. Em certa altura decidi que aquilo parecia um teste de Rorschach. Ele escancarava o folder na minha cara e eu dizia: "Não", "Não", "Não", e para tudo eu teria a mesma resposta e fingiria interesse pelo último, fosse o que fosse. Fez várias investidas com outros cursos. Fui mais veemente nas negativas. Mas ele estava disposto e me irritar. E eu também. Pra mim, sem problema, aquela chuva toda lá fora me prenderia ali por muito tempo. Fiquei doido com o fato de ter caído nessa conversa fiada e resolvi entrar no jogo. E o último curso era de inglês.


- Ah, acho que inglês interessa, qual é o valor do curso?


Agora começa o calvário. A minha pergunta é o gancho para ele colocar em prática toda a maldita técnica de irritar pessoas. Essas pessoas devem trabalhar sob a ameaça de terem a pele arrancada para decorar algum abajur se perderem a venda.


Ele começou a falar da metodologia, dos livros, dos professores, da técnica disso, e daquilo, e blá, blá, blá... O tempo foi passando... passando... e eu cortei:


- Rogério! Quanto eu vou gastar para fazer esse curso?
- Calma, eu vou chegar lá.
- Eu só quero saber o preço. Não adianta contar toda essa historia, estou ficando cansado.


Mas o cara era de fibra, queria por toda a lei manter a própria pele sobre si. Com o mesmo excesso de educação de antes, e agora sim, parecendo uma bichona prestes a perder o controle, começou a falar mais rápido e dar detalhes banais e a cada segundo, a cadeira dele, que era para eu sentar, parecia ficar mais desconfortável. A minha que era a dele, agora era minha. Eu recostei e cruzei a perna fazendo um T, acomodei os dois braços relaxadamente no apoio de braços da cadeira. Ele não conseguiu disfarçar a ira, me fulminou com os olhos porque no manual dele não dizia nada sobre ter a cadeira trocada. Continuou a falar e eu nem prestei atenção, contei mentalmente até algum número e então interrompi novamente:


- Chega! Você está me dando sono. Não quero fazer nada, não sei quanto custa o curso. Tudo está confuso.
- Aqui não é assim. Eu tenho que te falar essas coisas, não é como no açougue onde você entra assim e... - começou a fazer um gesto todo desastrado imitando alguém no açougue - e pede um quilo de acém, paga e vai embora.


Hora de deixá-lo um pouco mais irritado:


- Ow...! que bom que o açougue não é assim. Imagina se o doido do açougueiro começa a contar a história do corte de acém para cada cliente? Nunca mais eu volto.
- É, mas aqui eu tenho que contar.
- Então eu vou indo. Não quero ouvir histórias.
- NÃO!!!. Um minuto!


Ele ficou bravo mesmo. Então é hora de piorar as coisas fingindo que confundi o nome dele:


- Sem crise, Roberto, você vai me falar o valor do curso?
- É Rogério.
- Ok! Quanto custa?


Contemplei a manifestação mais ordinária do mundo. O sujeito teve um treco. Colocou a mão na cabeça parecendo um comercial de remédio contra dor de cabeça enquanto falava mais afetado ainda:


- Aiiii, você me irrita!
- Jura? Vai me falar o preço?
- Calma! Eu vou chegar lá.


Ele virou o folder do curso, e fez quatro círculos, um embaixo do outro, e dentro de cada um fez um sinal de "mais". No primeiro círculo escreveu: Camiseta.


- Você vai ter a camiseta do curso, com a identificação da escola e...
- Pára, pode parar! Que história é essa de camiseta? E ainda tem mais três tópicos para explicar? Não quero a camiseta do curso. Quero saber quanto custa. É difícil? Você precisa perguntar para alguém? Eu espero. Vai lá.


Ele reagiu pegando a caneta e escreveu no último tópico o valor da mensalidade: R$ 399,00, material: R$ 1.500,00 e matrícula: R$ 120,00.


- Não posso pagar por isso.
- Criatura, você tem o benefício 755, vai sair pela metade.
- Trinta minutos de conversa e você só consegue responder o que não quero saber. Pra mim chega, Roberto.
- Não é Roberto, é Ro-gé-ri-o!
- Roberto ou Rogério, é tudo igual. - afastei a cadeira e ameacei levantar. - Não quero nada, não sei quanto custa.


Ele abriu uma pasta, tirou uma carta e pôs sobre a mesa.


- Está vendo isto? E a carta da UNE que autoriza o seu benefício. Você tem certeza que não quer?
- Tenho muita certeza. Não suporto mais um minuto dessa conversa imbecil.
- Muito bem. - escreveu "CACELADO" bem grande, em diagonal ascendente da esquerda para a direita. Escreveu com raiva e ia reforçando cada uma das letras como se aquilo fosse um voodoo meu.
- Rogério - coloquei o dedo indicador entre as letras "A" e "C" -, está faltando um "N" bem aqui.
- Agora lembrou meu nome? - escorria suor pela testa dele.
- Na verdade lembrei de outra coisa, acho que agora aceito o café...e o desconto já facilita. Mas você rasurou minha carta de autorização.


Prontamente ele abriu a pasta e pegou uma cópia.


- Tenho uma cópia aqui. - pôs ela na mesa.
- Ah, ótimo, como mágica. - provoquei - E o café?
- Cara, você é doente?
- Não. Só quero o café, não remédios.


Ele saiu perplexo, talvez para arrancar a própria pele ou para buscar o café. Eu saí logo atrás, tomei o caminho da rua pensando: quero ser bom.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 16.1.07
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2.1.07

Começou... e começou

De todas as férias que eu não tive até hoje, tudo o que pôde acontecer nessa foi o seguinte: os dias passam de dois em dois. E, acabaram as férias.


Não vou conseguir esconder que estava com uma puta saudade do trabalho. Meu trabalho é a minha segunda família, a segunda casa, e eu passo o dia me divertindo. Dizem que vou para casa só para dormir, como se fosse um hotel. Em parte é verdade, e a outra parte que resta, também é verdade. Férias deve fazer bem para algumas pessoas - pode até ser -, eu sou incompatível com tal atividade, bastam alguns dias em casa e já começo a ter comichão...


Começou o ano e eu lembrei de cumprir a nova promessa. Minha agenda dois mil e sete chegou e eu tratei de sacrificar aleatoriamente algumas páginas, afim de não marcar nada nessas jazidas datas. Assim, espero ter mais tempo pra mim. Nem que eu tenha que comprá-lo. Tens alguns minutos para vender?


Mudando de assunto, outra coisa começou já no segundo dia do ano: veiculação das malditas vinhetas das escolas de samba. Graças a Deus, não terei tempo para vê-las. E para este caso, se você tiver tempo para vender, dispenso.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 2.1.07
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28.12.06

Feliz próximo dígito

Eu não sei quando perdi o gosto pelas comemorações. Talvez eu nunca tenha tido e apenas fingi por conveniência. Era bem irritante o dia dos pais, mãe, namorados, páscoa e assim vai, principalmente porque são comerciais.


Mas a passagem de ano é um pouco diferente. Ninguém dá presentes de fim de ano, as lojas não fazem promoções para presentear, embora, o natal esteja bem pertinho da virada do ano, isso livrou o ano novo do comercial, pois é um prato cheio, um grande motivo para fazer as pessoas gastarem dinheiro.


Importa é que a maratona dos doze meses no nosso calendário foi vencida.


E agora, vem a lista, aquela onde escrevemos uma série de coisas. Coisas que prometemos fazer para sermos melhores na próxima dúzia de meses. Engraçado, que os novos planos são sempre os velhos.


E dessa tal lista que sempre fazemos, eu prometo uma, que nunca foi inclusa nas anteriores: ter mais tempo pra mim. Lembro que quando 2006 tinha caminhado um quarto, ou seja, perto do mês de abril, eu estava também, perto de enlouquecer. Imaginei conseguir uma agenda com mais linhas para resolver o problema, ou se escrevesse um pouco menor eu conseguiria enfiar todos os compromissos e afazeres do dia numa única página. Isso piorou a ponto de ter que usar duas páginas pra frente e anotar compromissos daquele dia, uma baderna. Fora os compromissos que foram adiados com mágica, mas sou um desastre com mágica, nunca dava certo.


Ai, a solução: a nova agenda 2007 terá folhas aleatórias sumariamente sacrificadas. Sim! Arrancadas, impedindo assim, que eu cometa a doidice de rabiscá-la com algum compromisso que certamente não cumprirei. Alguns dias, simplesmente, deixarão de existir, pelo menos pra mim. Eu me prometo isso dentre outras coisas, é certo.


Então, feliz próximo dígito, pois é tudo o que muda, só mais um dia comum. Foi mais ou menos o que escrevi no verso de um dos cartões que uma respeitosa lista de amigos e parentes receberam. Um cartão nada ortodoxo para desejar um 2007 du...

[clique e amplie]
O Paciente apresentou quadro de delírio em 28.12.06
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2.12.06

A pomba e a valsa

Eu entrei em casa num sábado às oito e pouco da manhã e fui recebido com a notícia que íamos para o litoral. E para quem não gosta da praia, não gosta da maresia, da areia e do calor, e que não gosta do que a maioria gosta, fazer essa viagem e para o litoral seria um verdadeiro pé saco. Tudo bem, era sábado e mesmo que eu tivesse acabado de voltar do escritório depois de ter madrugando trabalhando num projeto, que por fim, o cliente fez alterações significativas, e o projeto não foi concluído, o que iria atrasar mais ainda, eu tinha que achar tudo normal. Isso seria outro pé no saco.


Ninguém deve agüentar o mal-humor alheio. Eu, que sou mal-humorado sem motivo, imagine agora, com motivo.


Depois da notícia, eu resolvi não pensar naquilo, aceitei e fui com parte da família para o litoral (a outra parte viajou para outro canto). Irritado e questionando todo o grande trabalho da noite e que ainda havia alteração no projeto atrasado, e agora, indo para o litoral (que ódio), eu tinha vontade de berrar bem alto!


Na ocasião estávamos fora da temporada, a qualquer hora que saíssemos seria bom. Nem por isso fomos tão cedo... Achei até que era muito tarde para um bate-volta, contudo chegamos pouco antes das onze da manhã.


Onze da manhã. Agora sim, mais de 28 horas ligado. Eu queria muito dormir, mas naquele calor, naquela umidade horrível, seria impossível. Eu só tive tempo de zanzar para lá e para cá até que meu avô notasse que eram onze horas. A hora sagrada, a hora da voltinha na orla, a voltinha que meu avô faz religiosamente todos os dias:

- Lucas, são onze horas. Nós vamos andar na praia. Eu você e seu pai. - parecia uma ordem.

Eu não ia conseguir dormir, não havia nada para fazer, e para não ter que ajudar com o almoço - a verdade é que eu nunca ajudei, mas vai saber que bem desta vez, alguém me pede? O melhor a fazer era ir andar. Aproveitei que já estava com o traje apropriado: tênis, calça jeans, camiseta e para completar, peguei um horrível chapéu de palha da minha avó. Assim estaria protegido da areia e os ventos carregados de maresia, e de tênis, ninguém vai até areia.


Aquele lugar é um deserto fora da temporada. Um deserto feio. Areia suja e nada para fazer a não ser reclamar - boa idéia, eu poderia passar horas reclamando, eu poderia até criar um curso universitário de reclamação... Minha profunda má vontade e o sono impediam até mesmo a boca de falar, deixando todo o protesto cozinhando debaixo do chapéu de palha enquanto andávamos pela orla da praia. Meu avô ia fazendo os mesmos comentários de sempre, eu até sabia cada um de cor. Ai veio um novo comentário, ou estava fora da ordem e eu achei que fosse novo. Ele levantou o braço mostrando a praia e falou "quem não gosta disso é doente", olhei em volta e havia poucas pessoas sãs. Nem por isso eu desistira de reclamar.


Fomos até um ponto e voltamos. Vi o incrível coqueiro que dá coco amarelo, só existe aquele no litoral paulista, pergunte para o meu avô, só tem aquele.


Quando eu pensei que o passeio chegava ao fim, resolveram parar num quiosque e eu, ainda sem força para argumentar sentei a mesa com eles, bem de frente para a praia. Pedimos uma porção de alguma coisa e três cervejas; acabei bebendo também, já estava tão aéreo de sono que aquilo seria o tiro de misericórdia. Nem sei por que bebi, eu não gosto de cerveja.


O rádio no quiosque estava ligado e começou a tocar By My Side - INXS. Fiquei prestando atenção naquela letra, o quanto era comum a mim no momento que eu viva... Uma pomba passou andando distraída perto da nossa mesa e meu avô apontou discreto para a pomba como se ela fosse ficar ofendida se percebesse. E disse:

- Falei pro seu Zé fazer uma varsa; olhar as pombas e fazer uma varsa. Eu disse assim: olhe as pombas nos fios e escreva uma varsa. (Seu Zé é o zelador do prédio)
- Varsa? - fiquei confuso.
- Valsa! - meu pai corrigiu.
- Como? Uma valsa? - quis entender.
- Não sabe o que é uma varsa? - meu avô disse mudando de posição na cadeira e indo com o corpo todo para frente desencostando da cadeira, fechou a mão fazendo um sinal de positivo e apontou com o dedão para as caixas acústicas atrás dele. - Não é essa porcaria que ta tocando. - ele nem sabia o que era, mas achava uma porcaria.
- Han, ok, e como ele ia escrever uma valsa? - continuei o raciocínio desprezando o comentário sobre a porcaria.
- Já viu como as pombas ficam nos fios? Igual onde escrevem músicas, aqueles risquinhos, um monte de linhas, sabe?
- Uma partitura? Putz! Uma partitura. - e comecei a rir.
- É! Isso mesmo. Viu como você sabe! - e recostou na cadeira de plástico satisfeito com a descoberta.


Ele voltou os olhos para a pomba que voou em seguida. Depois mirou o horizonte e assim ficou. Tudo aquilo era esquisito. A pomba, aquela mesa, aquela cerveja na minha frente, aquele papo doido, a minha imensa má vontade com tudo. Aquela situação isósceles, nós três, três gerações, três cervejas, e talvez meu avô não saiba, mas a valsa tem três tempos, assim como a vida.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 2.12.06
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27.10.06

Hélinho: o absurdo

Inaugural da série: A origem de todo o mal. Parte I.


Eu tenho medo da minha memória, e ela deve me odiar. Esta manhã, assim que abria a janela do meu quarto, um conjunto de breves eventos e que não devem ter durado mais que alguns segundos, entre um vento gelado e seco da manhã e um cheiro de tinta vindo do apartamento ao lado, reuniu na minha mente uma centena de fatos insanos. Fui levado para quase duas décadas atrás na minha vida e isso me fez rir, balançar a cabeça em sinal de negação, e talvez eu até tenha dito alto a seguinte frase: "Hélinho, coitado. O Hélinho era um absurdo".


É simples. A viagem que fiz até o ano de 1986 – ou por ai, começa assim:


Às 6h da manhã de algum dia do ano de 1986 – ou por ai, o magnífico rádio-relógio CCE cinza ligava-se automaticamente. Através das ondas de Freqüência Modulada, começava a transmissão do programa "O Pulo do Gato" o alto volume acordava a todos, inclusive eu. O rádio tinha um botão mágico chamado "soneca", ele é ótimo, até o meu celular tem um. Mas acho o botão do rádio dos meus pais nunca fora usado.


Não havia cristão que conseguisse dormir com tal volume. Não havia dúvidas, era hora de levantar e se eu não o fizesse, minha mãe faria isso por mim com muito êxito! Minhas cobertas sumiam de cima do meu corpo, e com cinco anos de idade, o que eu poderia fazer contra essa força a não ser entregar-me aos cuidados maternos, e a impressionante eficiência dela para me trajar num ridículo uniforme composto por uma calça azul-marinho, tênis conga – aquele com uma bola de borracha dura na ponta – uma camiseta branca que tinha um urso panda com cara triste estampado bem no centro da camiseta – o urso panda, na verdade, parecia a primeira versão do Mickey Mouse, só que mais tosco – e para esconder o simpático mamífero, um blusão azul-marinho, é claro.


Então, era sempre assim, semana após semana, da cama para dentro do fino traje, e dali direto para o banco gelado de um VW Variant TL branco. Esse carro, além de ser medonho de feio, havia no painel um velocímetro preto que era fracamente iluminado por uma luz verde, parecia um aquário sujo, e sem qualquer eficiência. Os números eram brancos e silkados usando um tipográfico muito parecido com a Univers Thin Ultra Condensed (apostaria que era esse). Enfim... Nem ao menos eu conseguia esquentar o banco e já estávamos na porta da escola.


Ali, na porta da escolinha, mamãe bem arrumada para o trabalho descia do carro, me dava um beijo, ajeitava seu penteado bacana – mais tarde, no início dos anos 90 ela escolheria um brega e volumoso permanente que pareceria uma pirâmide –, papai, de terno, ficava dentro do carro fazendo tchau.


Depois que eu atravessasse o portão, só sairia quando o dia estivesse indo dormir. Cruzes, período integral. A escola era um conglomerado de pequenas casas que viraram uma só. A minha salinha ficava lá embaixo no final de uma grande rampa que se estendia do portão até os fundos. No começo da rampa ficava a sala das professoras, onde elas fumavam, contavam piadas sobre os pais dos alunos e liam revista Cláudia entre outras coisas saudáveis e etc...


Tudo que eu precisava era de mais uma horinha de sono, queria a minha tecla "soneca", só minha, e isso, é claro, eu conseguiria na salinha logo na primeira aula. E tem uma estratégia para conseguir esse mini-repouso. Dentro da salinha existiam cadeiras ótimas. Tais parecem qualquer coisa, menos uma cadeira. Quando as vi pela primeira vez, pareceu mais um desafio cognitivo, uma coisa estúpida, parecia-se com tudo, menos cadeira. Algumas tábuas de madeira formando um paralelepípedo na vertical, onde uma das faces era ausente assim como o tampo e base, uma tábua na horizontal fixada a num terço da altura total formava uma plataforma, ou o assento, onde cabia certinho o corpo de uma criança de cinco anos – o meu, contudo, era uma cadeira, em edição limitada, só tinham três delas.


A ampla sala deveria ter meia dúzia de mesas bem grandes e baixas, eram de fórmica em cores sortidas, e as mais tristes que a indústria moveleira poderia fazer usando tons pastéis: azul clarinho, rosa sujinho, amarelo feinho e verde enjoadinho; ali no meio de toda essa mobília depressiva, tudo que me restava era achar a minha cadeira estranha, arrastá-la até o fundão e taticamente posicionado eu ficaria invisível aos olhos da professora e teria meu soninho garantido.


Sempre assim, até que na mesma semana que circulou uma história sobre o Henrique, que iria para uma outra escola, pois já sabia ler, e a escola não fazia alfabetização. Era verdade, todo mundo amolava o moleque para ficar lendo isso e aquilo. Coincidentemente, foi na mesma semana que pintaram todo o parquinho e que também o Hélinho apareceu, vindo de outra escola. O Hélinho tinha uma mala enorme que arrastava para todo o lado e uma lancheira customizada. É amigos, o porta-quitutes era todo embalado pelo adesivo Papel Contact textura de madeira, simplesmente horrorosa. Céus, o meu senso para identificar o brega era ótimo desde aquela idade. Mas nem por isso e nem o fato de ter sempre um ranho fresco no nariz, o Hélinho era um absurdo.


Hélinho era um absurdo porque tinha medo de cagar! – a ciência já deve ter batizado a fobia com algum nome mais adequado. Todavia, a cada vez que precisasse visitar o trono de cerâmica ele gritava: "Tiaaaaaaaaaa, vô fazê cocô... aaaaah, cocô, cocô...!!!", ficava desesperado; as tias perdiam horas tentando convencê-lo que era normal se desfazer da merda. Tinha coleguinha que ficava apavorado, arregalava os olhos, mordia os dentes e apertavam as mãos umas contra as outras. Alguns se agarravam na mesa e também choravam, aquilo parecia um hospício. Outras nem percebiam o que acontecia, assim como eu que só queria dormir um pouquinho. Eu olhava aquilo e não conseguia concluir nada.


Somente anos depois, na janela do meu apartamento eu descobri: Hélinho era um absurdo, Henrique era um gênio e saberia ler a palavra 'absurdo' onde quer que ela esteja, e eu queria somente uma soneca.


Hélinho, por onde você anda?
O Paciente apresentou quadro de delírio em 27.10.06
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14.9.06

Açúcar

Pausa. Quarta-feira agitada, reunião longa no centro da cidade, já é o início da noite, próxima parada: Rua Japurá, 11 - padaria Palma de Ouro. Por voltas das nove da noite, e apesar de muito cheia tive sorte de encontrar um bom lugar no balcão com vista para toda a padaria.


A moça bonita passou com uma bandeja de brownies fumegantes. Sorriu, contornou o balcão e acomodou a bandeja dentro de uma estufa de vidro com outras delícias provocantes, acertou o avental preto antes de dizer:


- Foi atendido?
- Não, entrei agora.


Ela espera o pedido levantando as sobrancelhas, quase sorrindo, mas pareceu mais uma careta.


- Um brownie, aquele de cima, e um café... puro!


Enquanto a máquina de espresso gemia como gostava e soltava seus vapores, meus olhos correram as paredes decoradas com fotos P&B do centro antigo. O passado, ainda há quem o consuma.


- Aqui - disse a moça enquanto servia.


Primeiro o brownie num pires quadrado, depois o café escuro e denso, em sua superfície algumas partes pequenas de espuma se desmanchavam em um tímido tom rosado e depois escureciam até sumir.


Ela sorriu novamente e eu vi um dente manchado com batom. Antes que eu pudesse retribuir o sorriso ela segue o roteiro:


- Açúcar ou adoçante?
- Açúcar.


De algum lugar que eu não vi, ela levantou o açucareiro e o colocou sobre o balcão, longe do café e do outro lado, perto do brownie.


Puxei o açucareiro para mais perto, voltei a olhar as imagens na parede sem prestar atenção no que fazia. Acho que baixei a tampa do açucareiro, nem lembro, mas sei que o afastei com as costas dos dedos. Mergulhei a lustrosa colher de inox no café e agitei o açúcar no fundo da xícara, senti o peso do açúcar na colher fazer resistência, até parecia areia de tanto açúcar. Novas espumas apareceram e foram elas, o café e todo o açúcar num espiral só. Havia exagerado sem notar. Mais algumas voltas com a colher, duas batidinhas na borda da xícara e a colher volta para o pires e repousa. E agora a asa da xícara, tão pequena, porque fazem assim? Isso é para mãos de criança, tem que pegar com muita força, e foi o que fiz. Segurei firme e levantei a xícara, quase ia tocar a borda com a boca e minha concentração foi interrompida por uma brisa que entrou carregada de aromas. Meus sentidos se confundiram, voltei a xícara devagar para o pires, fechei os olhos com força e eles encheram de lágrima, minha pele arrepiou e cenas daquele lugar se remontaram em cores e atmosfera - um maldito presságio da primavera.


Só alguns segundos para que eu me recuperasse, bastava passar dois dedos em cada olho. Tudo certo. Continuei... xícara na mão, e agora mais perto da boca. Um gole. Puta merda, que doce, insuportavelmente doce!


Já falei que o açúcar oculta o sabor real daquilo que você come ou bebe? E muito açúcar, sabe o que acontece? Nem uma abelha provaria desse café. Jamais bote algo demais no que você prova. Isto serve para tudo, qualquer coisa. Lancei a colher para dentro da xícara e dei mais algumas voltas com ela, seria inútil. Misturar mais não resolveria. A brisa persistiu e eu cedi.


Levantei atordoado, a mente estava em outro lugar, e aquele sabor medonho na boca irritava; paguei a conta e saí. Pelo vidro do lado de fora vi o brownie do mesmo jeito que foi servido, a colher afogada no café, eu afogado na lembrança que a brisa trouxe, a estação, e o vento batendo na minha cara, ressuscitando o que tanto desejo matar... Caminhei rápido numa direção que não importa, querendo ir embora, querendo que tudo fosse embora, a estação, o perfume, a dor.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 14.9.06
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28.8.06

Ontem?

Sim, é claro que lembrei. Mas deixa quieto.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 28.8.06
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23.8.06

Velhos hábitos


Nu 1. Clique e amplie.

Nu 1. Grafite.



Nu 2. Clique e amplie.

Nu 2. Lápis de cor sobre superfície texturizada.

Eu parei uns instantes e pensei na forma que tomo minhas decisões. Os melhores momentos foram aqueles na qual decidi sem pensar. Sim, um impulso, um "sim, conte comigo." ou "É claro, estarei lá.", sem a menor preocupação com os outros compromissos; já consegui marcar dois para o mesmo dia e horário! Um foi sacrificado, obviamente.


Foi assim no último fim-de-semana. Um convite para realizar uma antiga prática: O desenho à mão livre, especificamente figura humana. Sete anos afastado dos pinceis, papeis e lápis; material que já nem tenho há tempos; mesmo assim, faltando algumas horas para o evento, aceitei e participei de uma sessão de quase três horas de duração, para desenho de modelo vivo. Sim é isso, uma pessoa tira a roupa e você a desenha.


Ao final da façanha, com folhas e folhas de rabisco, acabei ficando feliz com alguns resultados. O Sesc Pompéia está de parabéns disponibilizando esse espaço para a arte.


Eu não sabia o quanto tinha saudade do cheiro da tinta, de ter as mãos sujas com grafite, e de encontrar um pessoal underground. É isso. De volta!
O Paciente apresentou quadro de delírio em 23.8.06
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8.8.06

A maçã verde, não mais!

A maçã verde, não mais!
O Paciente apresentou quadro de delírio em 8.8.06
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20.7.06

A amizade

Busquei densamente crer nas boas intenções. Nas minhas ao menos. Confiei no que fui capaz de construir e que, tal investimento pudesse durar, na mesma medida de tempo, força e grandeza com o qual desejei: o sempre. Errei. Crendo somente no meu desejo que não pode ser igual ao do próximo.


Cada indivíduo nutre em quantidade maior ou menor essa vontade e na sua forma particular de ser e sentir. E saberei eu, o quanto motivei tal anseio? Bem sei. Falo de forma geral, do afeto, da estima, do bem-estar em companhia, da lealdade e despojo do interesse próprio em favor inocente ao outro: o amigo.


Assim abrevia-se o relacionamento humano que chamamos de amizade. E hoje - vinte de julho, o Dia Mundial da Amizade - reflito e admito não poder afirmar com fé se fui eficaz na aplicação de tais conceitos, embora numa breve avaliação não encontro debilidade em meus esforços; ou devo entender que foi falta de confiança em tudo que uma amizade representa? Ou acreditei sozinho? Seria mesmo que "a amizade é um amor que nunca morre"? (Quintana, M).


Melhor celebrar as amizades vivas, pois triste é a amizade estando viva mostrar-se como falecida - e se desejo que ressuscite, isso é tolice? Amizade é conceito e não verbo, portanto, o poeta sabia: a vida não é poesia.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 20.7.06
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14.6.06

O Tempo

O Tempo deforma. O Tempo imprime sua força sem questionar. Não vá contra ele, despedaçar-se-á.
O Tempo deforma.
O Tempo imprime sua força sem questionar.
Não vá contra ele, despedaçar-se-á.

Queria escrever algo sobre o Tempo. Sobre a falta dele, na verdade. Na verdade já não sei bem.


Talvez sobre o quanto ele seja rápido (ou foi) e lento (ou ainda é) ou o quanto me maltrata. O quanto me lapida sem que o peça (mas é preciso); testa-me igualmente sem permissão, faz-me meditar, querer saber por quanto tempo ainda o terei, e por quanto tempo não o terei.


O Tempo vigia-me e também não se lembra da minha existência; muitas vezes fico abandonado, solitário... passando o Tempo. Discutindo com o vazio contido nas horas que se arrastam e afrontando os minutos ligeiros e displicentes.


Tempo perdido, inimigo, infinito, onde encontro seu início?
Afundo-me em sua imensidão trevosa e tão somente observo. Ou sou observado? Agora já não sei, não entendo este Espaço, esse Tempo ou o espaço-tempo. Quero o curvo, girado e distorcido, limitado, encaixado, explicado, desordenado e, depois tudo como era antes.


Gostaria talvez, de ter o Tempo da forma que penso percebê-lo e não da forma que realmente o percebo. Realmente? Não sei mais o que é real. Ainda insisto numa mesma questão, colido no mesmo ponto vazio do Tempo. Cada porção do meu ser vaga num rumo infecundo. O Tempo, por todo o tempo é maléfico, em tempo, benéfico; o Tempo em todo tempo é intransigente.


Queria escrever algo sobre o Tempo. Ele merece mais atenção. Ele passou. Está tão longe agora.
Queria muito, contudo, estou sem Tempo.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 14.6.06
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31.5.06

Nota 8,75

Praça João Mendes - Eldorado, ou simplesmente 5611/10, esta é a linha do ônibus que tomo para chegar ao escritório. Se você conhece essa linha, sabe que o pior horário para tomá-lo é às 8h da manhã de qualquer dia do ano. Se você não conhece, agora já sabe. O número de usuários que os aguardam a essa hora do dia é quase impronunciável. Sem mencionar que o ônibus quando chega ao ponto ele já está completamente tomado de pessoas do lado de dentro, sendo assim, existem basicamente duas formas de entrar neste ônibus, a) com a força bruta e b) com muita força bruta.


Ambientes públicos são excelentes laboratórios para quem curte estudar o comportamento humano. Esse ônibus, por exemplo, provoca estranhas manifestações nas pessoas do lado de fora. Quanto maior é o número de pessoas já dentro dele, maior é o desespero desenfreado das pessoas do lado de fora para adentrá-lo. Como se isso fosse sei lá, assustar os espaços preenchidos e torná-los vagos?


Curiosamente, nesta manhã, fui a única alma de todo um ponto de ônibus absurdamente lotado a subir neste ônibus. Um fato muito estranho considerando a circunstância acima. Curioso também foi o volume de pessoas dentro dele, acho que meia dúzia de pessoas. Paguei a condução, caminhei pelo corredor até perto da porta de saída e sentei-me no lado esquerdo em um daqueles bancos que são mais altos. Abri meu livro e comecei a esquecer que estava sentado num desconfortável banco de plástico injetado, duro e torto.


"Algumas pessoas com síndrome de Tourette têm tiques de arremesso - ímpetos e compulsões, súbitos e aparentemente sem motivo, de..." Acho que foi nesse parágrafo, quando o motorista repentinamente parou aquela lata com rodas. Na hora não consegui entender o que estava acontecendo, olhei em volta e notei que parávamos um pouco fora do ponto. De relance vi uma mulher em uniforme predominantemente azul-marinho - uma aeromoça, muito freqüente nesta linha que passa em frente ao aeroporto - ela vinha para entrar no ônibus. A porta da frente se abriu.


Através da porta, subia uma figura feminina que conseguiu atrair toda a atenção dos presentes no coletivo, só havia homens. Todo o dia vejo essas comissárias, mas essa era diferente. Começando pelo seu uniforme muito incomum, seu corte era ousado, decotado, manga curta e folgada. Sob o terninho uma blusa branca também decotada e o seu volume mamário extraordinário. A saia muito pequena e não usava coque. Comumente os coques são horríveis, são presos de forma tão selvagem, com tanta força que as mulheres que usam parecem sorrir involuntariamente. O cabelo dela estava solto, era comprido e escuro.


Ela parou na catraca, abriu uma pequena bolsa e começou a procurar algo. O cobrador teve uma apnéia momentânea e ajustou a calça para disfarçar uma ereção descarada. Por fim ela achou o cartão e liberou a catraca. Caminhou pelo corredor, ciente de todo o seu esplendor. Disseminando todo seu feromônio dentro daquela jaula com rodas e cheia de machos. Continuou sua marcha provocativa e sentou-se do lado direito do ônibus exatamente paralelo ao meu banco.


O dia estava abundantemente iluminado, e apesar disso estava frio, as janelas fechadas aprisionaram no ambiente o perfume daquela mulher que ficou por ali atiçando o imaginário masculino.


Os outros homens sentados mais a frente não conseguiam disfarçar o quanto estavam inquietos, pareciam estar sentados em formigas, mexiam-se para olhar para trás fazendo movimentos acrobáticos com a cabeça. Qualquer ortopedista consideraria muito perigoso mover a cabeça daquela forma, principalmente quando a cabeça está sobre um pescoço.


Imediatamente o livro sobre psicologia e neurologia que lia ficou desinteressante.


As proporções anatômicas da jovem eram diametralmente perfeitas. Ela ignorou a curta saia que usava, cruzou a perna esquerda sobre a direita e isso forçou o corpo a assumir uma nova postura, completamente provocante, até a luz do sol que entrava pela janela fez questão de iluminá-la de forma especial. O novo ângulo desenhava brilhos mais intensos sobre a perna e agora os volumes se tornavam exatos. Despreocupadamente passou a mão esquerda no rosto e no mesmo movimento revelou seu perfil deixando boa parte do cabelo atrás da orelha. A maquilagem leve e simples deixava todo o espetáculo para o rosto de expressão forte com traços retos e sutis. Completamente desejável. E agora mais de perto, todas as observações anteriores se confirmavam, o cabelo era como um manto leve e de volume ideal, absolutamente bem cuidado.


Uma pena a viagem ter sido rápida. A 23 de Maio com trânsito livre deu liberdade e espaços vazios para o motorista afundar com ódio o pé no acelerador e desejar ser um passageiro só naquele dia.


Desço no próximo ponto. Aproveitei o ônibus parado um ponto antes e levantei, dei o sinal, parei na porta e esperei. Desta vez eu via apenas a moça de costas.


O ônibus ainda estava parado quando ela se mexeu de maneira estranha no banco e tossiu. Fez um som semelhante ao de um cão rosnando, levantou rapidamente, abriu a janela acima de seu banco, pôs as mãos na suja e maltratada esquadria de inox, deixou seu corpo curvar levemente para trás, respirou fundo fazendo suas costas crescer, e em seguida moveu o tórax rápido para frente junto com a cabeça e... UAU! Que bela escarrada ela deu.


Expulsou com violência uma massa verde disforme e pesada que girou no ar algumas vezes antes de atingir o chão onde ficaria grudado, agora desprezado e depois pisado por alguém distraído.


Gostaria de ter voz de jurado de escola de samba só para dizer: Nooooooooota Oito e Setenta e Cinco!


A execução foi ótima, muito boa mesmo, mas pecou na finalização. Sujou o cantinho da boca e limpou com o dorso da mão, não pode. Desconto de 1,25 pontos. Achei justo.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 31.5.06
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9.5.06

Exceções e relatividade - parte I

Considere assim, ou na ordem que desejar: Arrancar-lhe as unhas com uma agulha torta, ser degolado com uma faca cega, jogar-se nu contra o arame farpado e mastigar a tampa da lata de atum aberta com um abridor enferrujado. Tudo é agradável, exceto o desprezo.
O Paciente apresentou quadro de delírio em 9.5.06
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